A Prática de Kinomichi



1. RECEPÇÃO AO INICIANTE

1.2. O acolhimento e o ambiente

Nem sempre é tão fácil adentrar um novo espaço onde se pratica determinada disciplina. Quando alguém se encontra sozinho em um lugar desconhecido, entre pessoas que parecem se conhecer e familiarizadas com os exercícios, se acentua a sensação de estranheza. Para facilitar o contato, o Mestre Noro organiza várias vezes por mês um curso aberto para que os interessados pelo Kinomichi tenham algum conhecimento, ou melhor, “sintam” como funciona e qual é o sabor do método Noro. A primeira impressão é agradável, as instalações são bem iluminadas, espaçosas, limpas e totalmente equipadas. Ao entrar, surpreende a atmosfera de simplicidade, rigor e cordialidade. O recém-chegado – muitas vezes um tanto apreensivo – se mostra meio confuso diante da presença daquele “senhor”, que o recebe sorridente e cortês. Não há nenhuma exigência; cada um se sente livre ali. A proposta é “praticar”; sem “cobranças”. Rapidamente, o recém-chegado sente-se tranquilo e relaxado.


Aos praticantes, no entanto, é apresentada uma série de “regras”. Em particular, devem estar vestidos de forma adequada, ou seja, com trajes limpos e bem passados. A higiene pessoal é da maior importância. Se esta primeira experiência for bem-sucedida, o caminho está aberto à prática: o primeiro requisito é o kimono branco. Este, a pedido do Mestre Noro, foi desenhado por Mouchy, a famosa estilista que trabalhou para Hanae Mori. Ela se inspirou, durante viagens ao Japão, nos trajes usados pelos padres xintoístas. Alguns praticantes usam uma espécie de calça/saia escura em estampa risca de giz que se chama hakama. O nome desta tecelagem japonesa usada para vestimentas cerimoniais tradicionais só é apropriada aos que já têm alguns anos de prática. O Mestre Noro usa uma roupa branca de corte especial. As paredes das salas são brancas, o tatame é forrado por uma lona branca encerada e os praticantes se vestem de branco. E não há móveis no salão, mas um grande arranjo de plantas e flores em um dos cantos. Tudo isso ajuda a criar uma atmosfera atemporal. Já não nos sentimos em Paris... talvez no Extremo Oriente? A vestimenta elimina as diferenças de condição social. As aulas são ministradas em silêncio. Apenas o Mestre Noro fala. As diferenças na educação desaparecem. A proposta é um encontro independente dos papéis sociais: encontro com o próprio corpo, encontro com o movimento, encontro com o outro, consciente de si mesmo.

Ritual de dobrar o hakama.

2. ABORDAGEM AO INICIANTE.

PARTICIPAÇÃO E DESCOBERTA DA SENSAÇÃO

2.1. Participe; não assista.

Ao Kinomichi não se assiste, se pratica. Certamente há uma beleza nos gestos, uma graça no movimento, e seria até bem possível ficar observando com interesse os praticantes, como se fosse uma performance de dança. Mas não se trata de uma apresentação. Por isso é que há apenas participantes, e não espectadores. Todos estão envolvidos em uma experiência que lhes é pessoal. Cada um é ator dessa dinâmica pela qual se interessa. A dualidade passivo/ativo, portanto, está descartada. Todos contribuem com sua presença, e a atmosfera se compõe a partir da contribuição de cada um.

2.2. Descoberta da sensação

Numa primeira sessão – embora seja diferente a cada vez, ou seja, nenhuma é igual à outra –, o Mestre Noro costuma dar as seguintes instruções: “Deite-se... sinta o chão... sinta suas costas... dobre seus joelhos... deixe que suas costas todas toquem o chão... veja o que acontece. Relaxe... livre-se de todos os seus bloqueios... e agora estenda os braços acima da cabeça, mantendo-os em contato com o chão... estenda as pernas... levantem os calcanhares... estiquem-se... Atenção, não force... não agrida... sem violência... com gentileza... observe... Liberte-se... observe. Agora estenda o calcanhar direito e o braço direito... suavemente... expire enquanto se alonga... volte e observe a diferença em relação ao lado esquerdo... O que você sente? Qual é a diferença? É mais leve? Maior? Mais quente? Mais vivo? Em seguida, experimente o pé esquerdo e o braço esquerdo. E agora a espiral... as costas todas... com os braços estendidos. Levante a perna direita e gire-a para a esquerda... com a cabeça virada para a direita... esticando a perna direita e o braço direito... sinta a linha de força passando pela pelve... uma linha contínua... suavemente... uma linha desenrolando... uma linha em espiral... você sente isso?”


O que poderia ser aparentemente tão simples e fácil quanto este exercício no chão? Parece praticamente ao alcance de todos: alongue-se, alongue-se. Não requer nenhum esforço: relaxamento, relaxamento. E é assim que a essência do Método Noro já se faz presente neste primeiro exercício. A passagem do físico para o psíquico é realizada de maneira imperceptível. O exercício não é puramente físico. Não se trata de realizar algo, de chegar a algum lugar, mas de estar presente naquilo que está acontecendo ... “Acima de tudo, não force, não agrida...” vem daí a consciência sobre a maneira como costumamos agir: eliminando à força o que resiste, não só no mundo exterior, mas em nossas relações com os outros, e também com o nosso próprio corpo. Não temos gentileza, nem respeito. E com isso acolho a proposta de mudar meu jeito de ser normalmente. Qual é o significado ? Ou, a que isso pode me levar? Eu não sei. Mas já posso ver que me sinto bem, como se estivesse em paz. Talvez de uma forma um pouco ingênua, vejo que meu bem-estar passa pelo meu corpo... que é bom quando não me sinto forçado... que ele prefere a suavidade à força! Como provar que ele estava errado? E aqui estou eu, adentrando um novo mundo, que já existia próspero, mas ao qual até agora eu ainda não havia prestado a devida atenção: ao sentir. Este mundo é, ao mesmo tempo, de uma sutileza enorme – pois se trata de apreciar a menor nuance, a menor mudança – e de uma variedade infinita, já que muda constantemente. Além disso, está sempre disponível e presente, visto que está em mim ou, mais exatamente, no ponto de encontro entre meu corpo e o que está fora dele. Ponto de encontro ou contato que me informa tanto sobre mim mesmo como sobre o outro, que me faz perceber a diferença e ao mesmo tempo me dá indicações sobre a ação que me cabe realizar. Esta sensação já estava lá, já existia, mas eu não a havia provado antes. Este sabor (do latim sapere, que dava sabor e conhecimento, que prova o quanto não existe verdadeiro conhecimento sem sabor) é o saber de quem agora sabe saborear. Para mim, este sentimento é muito pessoal. No entanto, assim que presto atenção, ele vai se ampliando para a sensação do outro. Enquanto eu não me sentir, não posso sentir o outro. A sensação é a chave de todo conhecimento. A consciência das sensações leva às emoções. As sensações são neutras: mais, ou menos vazias ou plenas, mais, ou menos leves ou pesadas, mais, ou menos quentes ou frias. As emoções são as cores subjetivas que damos às sensações: agradáveis ou desagradáveis, e dependem de associações que estabelecemos ao longo de nossa história com as sensações. Essas emoções estão presentes em todos nós, mas sobre elas o Mestre Noro prefere não falar – sendo, apenas, categórico em relação à sua presença. Ele se limita apenas a falar sobre a forma como elas se expressam através do corpo: através da tensão, do bloqueio. O relaxamento e o desbloqueio, graças ao alongamento e à expiração, permitirão o livre fluxo de energia que reabsorve e dissolve as emoções. Raramente o Mestre Noro fala sobre energia (ou Ki), ele apenas revela o erro que nos faz acreditar que força é tensão, que consiste apenas em prender a respiração e inflar os músculos. Os músculos são apenas o suporte externo.


A energia, diz ele, é como água fluindo por uma mangueira de incêndio. Os músculos são a parede externa. Bloqueie o cano e tudo explode. É por isso que os atletas que operam na “força” costumam ser vítimas de acidentes. A verdadeira força está em relaxar e liberar, no fluxo livre da água pela mangueira. Daí a imagem do homem: braços erguidos em direção ao Céu, pés enraizados na Terra e a energia que circula por ele como tubos do Céu a Terra e da Terra ao Céu. Esses dois tubos, ou caminhos de força, se encontram nele em um ponto central que os japoneses chamam de hara.

3. O ORIENTE DE PARIS?

Quando você entra na sala de prática – ou dojô –, você é imediatamente atingido pela atmosfera... você se sente longe de Paris. Tem algo exótico, oriental, japonês. É um mundo diferente... sentimos a presença de uma tradição. Há a decoração da sala, a vestimenta dos praticantes, a etiqueta e os rituais de saudação. Isso tudo é desafiador para alguns e atraente para outros. O Mestre Noro, por sua vez, adota uma posição muito matizada e em constante evolução com relação ao respeito pelas formas tradicionais. Nada lhe incomoda mais do que a imitação servil de formas que antes tinham significados e funções bem diferentes dentro do contexto japonês em que eram praticadas. Ele apenas guardou o que é significativo para os ocidentais. Nenhum sacrifício, portanto, ao “japonismo” e ao exotismo artificiais. Por outro lado, sendo ele próprio japonês, “todo o Japão”, a forma “japonesa” de ser, ou mesmo a antiga tradição japonesa, ele transmite com a sua presença.

3.1. O Dojô

O dojô – ou espaço de prática – significa literalmente o lugar onde se pratica o Caminho (Do = Tao = Caminho). Este termo, que apareceu no Japão no século 10 depois de Cristo com a introdução do Zen Budismo, tem uma longa história. Na Índia, falamos da iluminação de Buda. A palavra em sânscrito para designar este estado é Bodhi, que significa “despertar”. Não faltam termos em chinês para expressar o Despertar. Mas não é uma questão de qualquer despertar, e sim um “despertar absoluto”. Portanto, para dizer que Buda alcançou Bodhi, diríamos aqui que “Buda atingiu o Tao”, isto é, o Caminho, a Verdade última. E assim como o lugar onde Buda se encontra quando atinge o Despertar é chamado de Bodhi Mandala ou “Círculo do Despertar”, esses termos também foram traduzidos para o chinês segundo o significado de Tao Ch'ang. Por extensão, os templos na China eram chamados de Tao Ch'ang, cujos caracteres são lidos como “Do-jô” em japonês. Por extensão, o dojô designou o espaço onde as artes marciais e suas derivações eram praticadas, e tornou-se popular desta maneira. Com pronúncia idêntica e uma escrita um pouco diferente, passou a designar o lugar onde se encontra, por exemplo, para jogar xadrez ou majongue. Para o Mestre Noro, o dojô designa essencialmente o espaço de prática do Kinomichi. É um lugar sagrado no sentido de que “ali são praticados exercícios para a evolução espiritual, para a busca da harmonização do indivíduo com a respiração cósmica, para entrar na circulação da energia entre Céu e Terra”.


3.2. Etiqueta e rituais

As regras de comportamento dentro do dojô não são especificamente orientais, mas se relacionam com a educação tradicional: respeito pelos lugares e respeito pelas pessoas. O respeito pelos lugares significa não só um comportamento atento ao dojô material: limpeza, manutenção, reparações, decoração, mas também em relação ao dojô “espiritual”, no sentido de que o dojô é um local especificamente dedicado ao estudo do Caminho. Esta atitude permitirá ao praticante encontrar a forma correta de se comportar, tanto na sala de prática propriamente quanto em suas dependências (vestiários, recepção, banheiros). Evidentemente, o senso de respeito pelos objetos se estende às pessoas. Por respeito aos demais, devemos primeiro entender o sentimento de gratidão para com o Sensei ou os senseis que “transmitem” e compartilham o que sabem. Mas é também pela atitude gentil dos praticantes mais experientes que os iniciantes podem progredir. O respeito é manifestado, por todos e para todos, através de um comportamento polido (sem ostentação), cortês, gentil, generoso, com cumprimento e saudações.


Existem vários tipos de saudação: saudação em pé ou sentado (seizá), saudação ao dojô, ao Sensei ou aos demais praticantes. O Mestre Noro quase nunca fala em saudação e deixa de intervir tanto sobre os acontecimentos. No entanto, a todo instante serve de modelo aos recém-chegados, que observam e se guiam por sua atitude. Nós nos referimos aos nossos mestres com um cumprimento puro e simples (como um “olá, professor”, o que muitas vezes pode ser mal interpretado pelos orientais). “A 7ª série nunca se curvará a um ser humano”, dizem alguns estudantes ocidentais, que veem a atitude de se curvar como uma forma de idolatria, reconhecendo nisso apenas a própria identificação com as formas. Nunca é perante um indivíduo que nos curvamos, mas sim o que ele representa, ou seja, a sua competência, o seu conhecimento que concordou em partilhar. A saudação é, portanto, uma forma de gratidão. Mas vai além. Curvamo-nos à energia primordial que ela manifesta e da qual cada pessoa é a expressão. É por isso que também o sensei se curva saudando seus alunos, independente do nível em que eles estejam. Realizar os rituais mecanicamente significa imaturidade. Não os respeitamos porque vêm de tradições antigas, mas porque têm um significado para si e para o grupo. Não há, no ritual, uma ideia de coerção, mas de conexão. O Sensei é saudado não porque chegou ao topo, mas porque permite ao aluno descobrir a sua relação com a energia. É por isso que sensei significa, em japonês, aquele que nasceu antes, portanto, aquele que sabe mais – e por isso é chamado de mestre. É respeitado porque transmite ao aluno aquilo que considera valioso e aquilo que o aluno está buscando. Saudação é expressão de gratidão. Nunca é uma pessoa que se cumprimenta, mas sim o conhecimento que ela transmite, a energia que ela revela e à qual conduz. A saudação também tem outros sinificados: marca a mudança de plano, a passagem do profano para o “sagrado”, um rito de iniciação através do qual a pessoa se transforma. O ritual também tem muitos outros aspectos. Assim, a saudação significa a aceitação do ensinamento que se recebe, e testemunha a receptividade diante desse ensinamento, a quem o transmite, ao parceiro que permitiu a prática. Da mesma forma, a posição sentada (seizá) implica uma postura e uma forma de respiração. A postura permite tomar consciência das tensões do corpo e, portanto, relaxar os músculos da face, mais particularmente os maxilares, os músculos dos ombros, desprender os rins, relaxar o estômago e os esfíncteres. A respiração calma promove relaxamento. Assim, se o dojô é algo como um perfume, uma fragância do Japão em Paris, o ritual que ali se pratica não pode ser repetitivo, esvaziado de sentido. Enquanto o dojô for um lugar onde algo está realmente acontecendo, o ritual vai se manter vivo. O dojô, então, se torna o lugar que cada praticante cultiva, um lugar que o sustenta e o nutre, um lugar de vida, iniciação e desenvolvimento, portanto, um lugar de criação.

4. PEDAGOGIA

4.1. Primazia do não-verbal

Tradicionalmente, no Japão, o ensino era transmitido sem explicação, sem verbalização. Ainda hoje, quando alguém aparece em um mosteiro para um Seshin, e ele nunca ouviu falar do Zen, ele é conduzido até um local para receber durante um período os ensinamentos sobre os ritos. Lá ele recebe pequenos golpes de uma vara para que se lembre de endireitar sua postura. E lá ele permanece durante horas, sem saber “onde chegará” e por que está experienciando tudo aquilo. Provavelmente, um ocidental, depois de uma hora, já abandonaria esta experiência... já um japonês, permaneceria, e aos poucos adentraria o caminho desta experimentação. Na verdade, aos japoneses, o que lhes interessa não é o fruto, mas o caminho que os conduz até ele. Eles propõem uma experiência, seja ela humana, espiritual, ou outra qualquer, sem querer revelar seu significado de antemão. Falar sobre ela seria sobrecarregar o discípulo com um tanto de ideias das quais, na verdade, ele deve se libertar para mergulhar na experiência. “Qual é então a essência do ensino?”– alguém pode se perguntar. A essência é o nada, porque se trata de adentrar o nada... de libertar a mente para entrar no vazio que se abrirá para a verdadeira sabedoria interior. Quando perguntamos a um monge, que acaba de ouvir as explicações de seu mestre, “o que ele disse?”, ele não sabe o que responder: “O que o mestre disse não importa. Sua presença é o que importa. Isso é um pouco parecido com o que muitos dos alunos do Mestre Noro sentem. Embora ele não seja particularmente budista. No entanto, permanece imbuído de toda a tradição japonesa da qual é portador. Este método tradicional de ensino não era desconhecido no Ocidente. Qualquer aprendizagem, seja de uma técnica ou de um conhecimento, passava pela repetição dos mesmos gestos. Esta pedagogia delegava a assimilação do aprendizado pelo corpo através da experimentação. Hoje, a educação “moderna” consiste em “explicar”; tornou-se “intelectualizada”. O aluno é acionado pela cabeça e não mais pelo corpo. Daí o frequente desinteresse dos alunos e, como certa reação antiintelectualizante, o interesse pelos “velhos” métodos que nos chegam do Extremo Oriente.


O Mestre Noro reteve muito do aspecto não verbal em seu método, embora ele mesmo falesse muito durante as aulas, procurando adaptar de alguma maneira o o ensino de Kinomichi à mentalidade ocidental:


“Quando um iniciante entra em um dojô pela primeira vez – diz ele –, ele imediatamente começa a praticar com um aluno mais experiente. Alguns gostariam de começar dando explicações. Mas isso não ajuda muito. Você tem que deixar o iniciante experimentar o movimento, sentir o que está acontecendo. Os alunos são muito sensíveis ao estado do instrutor: seu medo, seu nervosismo, seu ressentimento. O aluno pode não ser capaz de analisar, mas seu corpo sente e responde a isso. Existe no ser uma parte ‘animal’ muito refinada e muito inteligente. Se, por exemplo, um aluno que está progredindo bem se cansa, desde que esse cansaço permaneça no nível do ‘animal’, não importa. Um pouco de descanso irá dissipá-lo. Mas, se essa fadiga ocorre na cabeça, inevitavelmente haverá um bloqueio. Nesse caso, não adianta dizer ou explicar nada, porque você está falando com a cabeça, e isso só aumenta o bloqueio. É melhor deixar ‘o animal’ fazer isso. Frequentemente, o instrutor redobra seus esforços para tentar transmitir ainda melhor. Isso pode criar tensão. Tudo deve estar na ‘temperatura certa’ para poder comunicar. Se cuidamos demais das pessoas, nós as incomodamos, e elas não ficam contentes... Mas, às vezes é difícil ficar calado... Um dos meus alunos, quando eu lhe mostrei algo, me disse: ‘Por favor, o senhor poderia me deixar sozinho no dojô, Sensei?’... então ele seguiu praticando sozinho, e quinze minutos depois, ele me chamou de volta. ‘Por favor, Sensei, agora o senhor poderia observar meu movimento?’ Eu o observava, percebendo então que ele estava sabendo fazer muito bem. Às vezes é difícil não falar, mas é preciso confiar no ‘ser animal’. Se quisermos nos dar bem demais com um aluno, corremos o risco de criar um bloqueio, portanto, devemos ‘deixá-lo’ simplesmente, mas isso não significa abandoná-lo. Algumas pessoas me perguntam: ‘O que é preciso para saber ensinar?’ Certamente é a força de caráter, de personalidade. Essa força vem do centro do corpo, do hara. Aquele que está centrado em si mesmo pode ensinar, mas não aquele que se encontra na cabeça. Para aqueles que estão centrados, os exercícios tornam-se muito simples. Mãos, pés, cabeça, tudo está em sintonia e em equilíbrio. Eles são como associados que cooperam entre si. E eles podem cooperar porque são animados pela energia que vem da mesma fonte. O maior perigo é escolher o professor errado. O professor deve ter uma mente em constante adaptação. O aluno então percebe essa evolução. Quando um aluno principia na prática, se ele tem tempo, ele deve investigar. O perigo está no professor medíocre, porque ele transmite sua própria mediocridade aos alunos. Costumo dizer aos meus alunos que eles são muito espertos. Eles provavelmente pensam: ‘Sim, claro, somos inteligentes...’ Mas, o que quero dizer com isso é que eles não são propriamente ‘inteligentes’. ‘Muito inteligente’ significa ‘não ser inteligente’, porque não se dispõe daquela inteligência que permite abrir portas. Alguns praticantes de Kinomichi acreditam que para se iniciarem precisam usar o cérebro. É um erro. Não faça perguntas. Pessoalmente, quando trabalhei com meu professor, nunca fiz perguntas. Quando ele me falava algo, eu me abria totalmente, ou melhor, eu tentei me abrir ao máximo e tentei receber e receber. Mas, a nossa cabeça muitas vezes fecha essa porta que nos permite a abertura para os outros. Com as portas fechadas, não é possível progredir; então se disponibilize e aprenda: as portas devem estar bem abertas. Neste momento, o mestre entra automaticamente. Com meu mestre foi maravilhoso: quanto mais ele sentia minhas portas se abrindo, mais ele me ensinava. É assim que mestre e aluno mantêm uma relação de responsabilidade. Alguns dos meus ex-colegas no Japão me perguntam: ‘Como você ensina? Aqui é a França, não o Japão.’ E eu respondo: ‘A cor da pele é diferente, mas o ser humano é o mesmo. Vale o mesmo para os costumes.’ E é com base nisso que avanço, e não significa que eu tenha deixado de ser japonês e me ocidentalizado. O coração é um. Assim que percebemos que o homem é um, as fronteiras deixam de existir. Pessoalmente, sou um homem do movimento. Nunca aprendi nada com os livros porque as teorias me parecem deslocadas; para mim, é a experiência que prevalece. Continuo estudando e aprendendo, mas é o meu corpo que me diz o que é certo ou não. É ao mesmo tempo um conhecimento íntimo que não deixa espaço para dúvidas e um não-conhecimento no sentido de que não passa por palavras, como se entende no Zen Budismo: ‘Aquele que não sabe é um tolo, quem sabe se engana’. Para mim, o verdadeiro conhecimento é aquele que se vivencia e se pratica. A expressão mais adequada é a linguagem do poeta, o desenho do pintor, o movimento do bailarino. Quando dou aula, os alunos percebem que eu falo muito, mas se falo não é para convencer. Se fosse para convencer, toda a minha pedagogia seria diferente. Muitos não entendem bem o que eu falo: ‘A linguagem do Noro é muito especial – eles pensam –, tenho que me esforçar para entender, senão nunca poderei fazer o exercício’. Mas não é assim. O que importa não são as palavras que digo ou as ideias que afirmo, mas a atmosfera que eu crio, o calor que eu transmito. E, quem está aberto, pode sentir isso. E os que estão fechados, desconfiados ou tensos podem relaxar e se abrir.”

4.2. Primazia da sensação

A teoria cria confusão. Mas o exercício permite que todos tenham uma experiência direta e pessoal, que lhes é própria. Experiência imediata e incontestável de um bem-estar, de uma plenitude, de uma alegria que conduz à paz. Essa experiência é diferente para cada pessoa. Tem graus, profundidades e intensidades muito diferentes, dependendo da abertura e da sensibilidade de cada pessoa. Mas, um iniciante pode experimentar tudo isso desde a primeira lição.


“Quando anunciei que queria que um livro fosse escrito para apresentar o Kinomichi – disse o Mestre Noro –, muitos praticantes e professores se preocuparam com este projeto e até se opuseram a ele: ‘Como falar sobre o que sentimos? A experiência é tão íntima. Nenhuma palavra descreverá o exercício que nos permite experimentar. É tão vasto... Por que falar quando você apenas tem que praticar?’ E eles estão certos em alguns aspectos, mas se esquecem de que, embora o Kinomichi já traga tanto para aqueles que o praticam, há um grande público que ainda não sabe o que é o Kinomichi.” E a primeira pergunta que uma pessoa faz quando lhe falamos sobre este método é: ‘Explique-me o que é Kinomichi.’ Então todos ficam um pouco constrangidos. Eles podem, é claro, dizer: ‘É ótimo... me dá uma forma extraordinária.’ Mas isto não é suficiente. O Kinomichi é uma disciplina de riqueza infinita. Ninguém ainda chegou ao fim de suas possibilidades.” O Mestre Noro seria um exemplo disso? De modo algum. Porque o método do Mestre Noro é um caminho de autodescoberta. Envolve estar sempre em movimento. Portanto, é um modo de vida. Estamos continuamente pesquisando e seguimos de descoberta em descoberta. O Método Noro é praticado em grupo, mas todos sentem de modo diferente, simplesmente porque todos são diferentes. Posso expressar meu próprio sentimento, mas o sentimento de outra pessoa será diferente. Cada um segue sua jornada interior, em seu próprio ritmo, mas um dia, fundamentalmente, todos chegarão a um mesmo lugar.

4.3. Títulos e iniciações

O iniciante usa um kimono branco. Ao final de algumas dezenas de sessões, ele recebe um distintivo que representa o desabrochar de uma flor de lótus – proveniente do brasão da família paterna de Mestre Noro –, que ele costura na parte superior das costas do kimono. Alguns anos depois, se perseverar na prática e tiver passado por certas etapas, ele recebe o hakama e se torna um assistente do sensei que lhe concedeu. Mais alguns anos neste caminho de ensino e aprendizado, e ele consolida por completo sua passagem para hakama. Iniciantes não entendem o significado desses títulos. Eles imaginam que ser hakama é ter recebido um diploma de competência. Não é assim. Assim como a faixa preta no Japão marca o início da verdadeira prática, e não seu objetivo final, vestir um hakama de Kinomichi significa que o praticante adentrou o caminho, que assumiu o compromisso tácito de nele perseverar. “Somente aquele que é hakama – diz o Mestre Noro – pode ser considerado um discípulo. Significa, com isso, que o Sensei aceitou a presença do sensei: o primado do não-verbal.”

Roumanoff, Daniel. La Pratique du Kinomichi avec Maître Noro. (Prefácio de Masamichi Noro. Fotos de Claude Lê-Anh). Coleção L´Homme Relié (dirigida por Gilles Farcet). Ed. Criterion, Paris, 1992.


Tradução (Capítulo 1) de Ana Paula Brieda Gomes.


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